Dia Nacional do Ex-Combatente: vereadores de Cuiabá honram os oficiais e “pracinhas” de MT que lutaram na 2ª Guerra Mundial

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    A Segunda Guerra Mundial eclodiu em 1939, após a invasão da Polônia pela Alemanha liderada por Hitler. No início, o governo brasileiro manteve uma posição de neutralidade, mantendo-se alheio ao conflito, mas negociando com ambos os blocos para obter vantagens econômicas e militares. No entanto, a pressão dos Estados Unidos e o ataque japonês a Pearl Harbor em 1941 mudaram o cenário. O Brasil rompeu relações diplomáticas com o Eixo (Alemanha, Itália e Japão) em 28 de janeiro de 1942, e cedeu bases militares do Nordeste e Belém-PA para as ações dos norte-americanos. Os alemães reagiram ao posicionamento do Brasil naufragando navios mercantes brasileiros no Oceano Atlântico, o que resultou na morte de centenas de civis. Isso gerou revolta popular e forçou a declaração de guerra, oficializada em 22 de agosto de 1942.

    Para participar do conflito, o governo criou a Força Expedicionária Brasileira (FEB). O seu símbolo da força era uma cobra fumando, uma resposta irônica aos céticos que diziam ser "mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil ir para a guerra". A FEB foi integrada ao IV Corpo do Exército dos Estados Unidos, atuando na Campanha da Itália. Para tanto, foram enviados cerca de 25 mil homens, a maioria deles denominados de “pracinhas”, derivado de “praça de pré”, jovens civis sem qualquer experiência militar. Os combatentes da FEB seguiram em quatro escalões para a Itália no segundo semestre de 1944, e obtiveram a grande e definitiva vitória que levou à rendição dos adversários em 21 de fevereiro de 1945, no Monte Castello.
O historiador Lenine Póvoas escreveu uma seção especial em sua obra História Geral de Mato Grosso a fim de registrar a participação dos mato-grossenses na Segunda Guerra. Póvoas destaca a atuação de Eurico Gaspar Dutra, nascido em Cuiabá, que ocupava o cargo de Ministro da Guerra. O segundo mato-grossense citado é o general Euclides Zenóbio da Costa, comandante da Infantaria Divisionária, seguido de mais 23 oficiais, dentre eles o capitão Vaz Curvo. A dois deles, Póvoas credita o título de maiores heróis brasileiros na campanha da Itália: o capitão João Tarcísio Bueno e o segundo-tenente Iporan Nunes de Oliveira. Dezessete mato-grossenses morreram nas batalhas.

    Vencidas as batalhas e regressados à terra natal, os combatentes foram condecorados e homenageados pela bravura nos campos italianos. Não faltaria, por parte dos vereadores de Cuiabá, o mesmo empenho em reconhecer a luta dos soldados mato-grossenses. No dia 19 de janeiro de 1948, os vereadores receberam a visita do capitão e ex-combatente Vaz Curvo, o qual foi elogiado por eles em virtude de sua coragem. Já no dia 2 de fevereiro, os edis homenagearam o ex-combatente João Tarcísio Bueno, dando seu nome a uma praça no bairro do Porto (praça Major Bueno). Na sessão do dia 23 de fevereiro, o vereador Delphino de Mattos fez um longo discurso em homenagem à passagem do dia 21 de fevereiro – terceiro aniversário e data símbolo da vitória brasileira no Monte Castello. O vereador lembrou a exitosa campanha da FEB que deu “uma dura lição para os arrogantes nazistas” e hasteou “em Monte Castello, beijada pelos ventos frígidos da velha Itália, o sagrado Pavilhão Nacional, a bandeira do Brasil”. Em seu discurso, Delphino destaca a atuação de Iporan Nunes de Oliveira, “filho de nossa querida Cuiabá, o primeiro que pôs os pés dentro daquela cidade (Montese), ainda no aceso (momento) de luta” – Montese é uma cidade italiana, e Iporan teria liderado a entrada da tropa brasileira no local, sendo assim reconhecido como um dos herói da guerra, afirma Lenine Póvoas.

    Nas décadas seguintes, a Câmara de Cuiabá cuidou de beneficiar os expedicionários e seus familiares. De acordo com a lei nº 111, de 26 de setembro de 1951, o Poder Executivo estava autorizado a doar sepulturas perpétuas nos cemitérios municipais aos ex-combatentes da FEB. Em março de 1972, o vereador Lídio Modesto (ARENA) indicou a doação de uma área em Cuiabá para a Associação dos ex-Combatentes da FEB em Mato Grosso. Pela lei nº 1.798, de 8 de maio de 1981, os ex-combatentes e suas viúvas receberiam alguns benefícios: isenções de impostos para imóveis; isenção de taxas comerciais; e prioridade para o ingresso no serviço público municipal. Verifica-se, ainda no ano de 1985, o cancelamento de seus débitos imobiliários (lei nº 2.276/1985). 
Trabalhos acadêmicos relembram a descrença interna com a participação brasileira no conflito. Acreditava-se que a falta de experiência dos combatentes e o baixo investimento bélico levariam o Brasil a uma derrota humilhante. No entanto, acompanharam a uma vitória surpreendente, que representou um grande passo para as Forças Aliadas na rendição dos inimigos e o fim da guerra na península da italiana. De volta ao Brasil, os “pracinhas” foram recebidos com festa, mas aos poucos, foram esquecidos – diferentemente dos oficiais –, dificultando a sua inserção e ascensão social. A então mestranda Caroline Martins Ojeda, da Universidade Federal de Mato Grosso, fala sobre um esquecimento social e estatal, através de entrevistas com ex-combatentes e estudos sobre identidade. Os entrevistados sentem que não foram devidamente valorizados, apesar da heroica atuação em 1945 – embora a Constituição Federal de 1988 garanta alguns direitos especiais a eles. De forma distinta, os cuiabanos – sociedade e poder público – não esqueceram os seus heróis. Todos eles, dos soldados rasos aos oficiais, foram homenageados e agraciados pela Câmara de Cuiabá e pela Prefeitura Municipal, que concederam direitos importantes, dentro das suas competências legais.
A lei federal nº 4.623, de 6 de maio de 1967, instituiu o primeiro domingo de maio como o Dia Nacional do ex-Combatente. Ficam aqui as nossas homenagens à memória daqueles que defenderam os interesses e a dignidade da nossa nação frente às forças inimigas na Segunda Guerra Mundial.

Danilo Monlevade
Secretaria de Apoio à Cultura
memoria@camaracuiaba.mt.gov.br


Fontes de pesquisa:
BORIS, Fausto. História do Brasil. 2ª ed. São Paulo: USP, 2002.
Jornal O Estado de Mato Grosso. 10 de março de 1972, ed. nº 6.228.
Livro Ata nº 1 – Arquivo Geral da Câmara Municipal de Cuiabá.
OJEDA, Caroline Martins. Força Expedicionária Brasileira: memórias de guerra e a formação de identidades. XXVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis, 2015.
PÓVOAS, Lenine Campos. História Geral de Mato Grosso: da proclamação da República aos dias atuais. Vol. II. Cuiabá: Entrelinhas Editora, 2022.
 

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